adormecia e tornava-se humana. cresciam-lhe braços, pernas, umbigo, pescoço, cabelo, tudo como era suposto, uma imensa mancha de pele cobria-a dos pés à cabeça, um esqueleto feito de osso sustentava-lhe o peso, os músculos davam-lhe força, o sangue corria nas veias, vermelho. adormecida, via-se ao espelho e imitava o que via na humanidade dos outros. andava, comia, dançava, abraçava, enjoava, mentia, falava, tremia, chorava, teimava, traía, tudo como via as outras pessoas fazerem. só não conseguia sonhar: o sono tirava-lhe a esperança. sonhar, só mesmo acordada, quando se desfazia das máscaras todas - das manchas, dos ossos, da pele, do pescoço, dos braços - e regressava ao casulo de mil cores onde tecia milagres.eram de todas as espécies e fazia-os para todos os gostos. pequenos ou grandes, consoante o pedido, imediatos os que sentia serem de maior necessidade, e mais demorados os que cria necessitarem de uma prova de fé. curava maleitas de amor com a mesma facilidade com que acabava com os maus hábitos, recuperava membros paralisados em auto-mutilações, afastava o bolor da tristeza quando o sentia colado às paredes da alma, oferecia consolo aos rejeitados e alívio aos enfermos e só não conseguia, e não porque não houvesse tentado, ressuscitar os que tinham morrido. a esses, não havia milagre que pudesse valer-lhes, por mais que lhe estendessem as mãos descarnadas do outro lado do véu e lhe implorassem que os trouxesse de novo para a vida.
na humanidade, chamavam-lhe a tonta, mas no casulo ninguém lhe chamava coisa nenhuma, já que os milagres eram entregues sem que fosse preciso um contacto directo, saindo em forma de espuma, de aragem, de sopro, e indo ao encontro de quem os tinha pedido de forma invisível.
houve um dia, porém, em que sentiu a presença de mais alguém no casulo. não soube identificar de onde provinha, apenas que se manifestava como um espectro de sombra latente em cada milagre que se preparava para realizar. tentou afastá-lo, mas a tendência para escurecer tudo aquilo em que tocava agravou-se. em pouco tempo, o casulo transformou-se em caverna e percebeu que estava perante um caso de morte, mais um caso perdido, portanto, de alguém que vinha, faminto, pedir-lhe o milagre da ressurreição a apressou-se a dizer-lhe
estás a perder o teu tempo, o melhor é voltares para o lugar de onde vieste
mas a morte gemeu e, nesse momento, realizou que o milagre que lhe era pedido só poderia ser concedido por deus e veio-lhe a vontade de adormecer ali mesmo outra vez e para sempre, veio-lhe o desejo de que lhe crescessem braços, pernas, umbigo, pescoço, cabelo, tudo como era suposto, para não ter de ser nada mais do que a tonta e esquivando-se assim à sua teia de sonhos.
mas deus condensou-a no colo nesse momento e concedeu-lhe o milagre das asas, para que de uma vez rasgasse o casulo onde tecia as suas magias, resgatasse o seu dom e levasse o milagre da esperança a todos os que estivessem dispostos a ressuscitar do sono mortal dos humanos.