acreditar no amor fez dele uma lenda. tinham-lhe dito que o semeasse numa mulher de formas redondas, porque eram sempre as mais férteis, as mulheres de formas redondas. em vez disso, porém, escolheu enterrar as sementes na planície do seu próprio peito e esperar que se avolumasse o bater do músculo lá dentro. o tempo passava e a cada dia sentia a forma do peito mais cheia, a ponto de lhe parecer que os pássaros faziam ninhos nas suas entranhas e que o coração já nem sequer batia como um tambor, assemelhando-se mais a um alegre chilreio. notava também que tudo era mais circular no resto do corpo, como se fosse um circuito que se alimentava sem depender dos movimentos exteriores ou alheios. e até o ar, que saía e entrava por ele, o insuflava de espanto, por não lhe exigir, afinal, nem pensamento nem esforço. reparava nos dedos e as pontas estavam mais curvas, o que lhe permitia tocar em todas as coisas sem sentir as arestas, as frinchas, os ângulos. os pés tinham-se tornado mais esféricos, o que fazia com que se rebolasse pelos caminhos, acompanhando os ciclos do mundo e o rodar das estações. e então não havia mais esquinas que fosse preciso dobrar, cruzamentos de espécie nenhuma onde necessitasse de perguntar
esquerda ou direita?
inverno nenhum que não desembocasse directo na primavera seguinte.
em cada olho, tinha agora os dois hemisférios, as constelações do norte e do sul brilhando na circunferência das íris, a rotação dos lábios era perfeita quando proferia palavras que se enrolavam umas nas outras e geravam um som igualzinho ao do mar, quando se enrola na areia.
contente, contente, circulando por todo o lado com um ar de recém-nascido feliz, todos acharam que só podia ter finalmente encontrado a mulher de formas redondas e quiseram saber o seu nome.
Graça
disse ele.
e todos acharam que Graça era um nome bonito e levantou-se um murmúrio na vila de que era seguramente mulher para lhe ter dado a volta à cabeça, pois os dias passavam, os meses passavam, os anos passavam e ele sempre feliz e contente, cada vez mais redondo e mais fértil. não tardou a que o considerassem o homem mais bem casado do mundo, a ponto de virar uma lenda, já que por ali os casamentos podiam até durar uma vida, mas tinham os seus altos e baixos, arestas e frinchas e esquinas. a verdade, porém, é que nunca foi visto a passear de braço dado com Graça nenhuma. e só quem o olhasse por dentro veria que a graça, afinal, era ter-se tornado no fruto da sua própria semente.
