já tinha sido de todas, faltava-lhe apenas ser seu. meio século de gabarolices, conquistas, engodos, o corpo acusando o cansaço do desperdício de se ter gasto tanto em tão pouco, uma lista infidável de lutas que tinha travado com a sua espada de carne, como se esventrar as mulheres fosse uma questão de força e de honra. não era. era, isso sim, o desejo contido de que o amassem, de que gemessem e suspirassem entre os seus braços, como se fossem morrer no exacto momento em que lhes dava prazer e, ao mesmo tempo, como se assim fosse capaz de matar medos, carências, vertigens. era, talvez, a secreta vingança de as castigar, quando choravam por mais e já se tinha ausentado, tentando curar o seu próprio abandono. era a crença de que se alimentavam das suas entranhas que o fazia gastar as sementes, tornando estéreis as noites e desconsolados os campos de onde o amor se ausentava, por sentir a terra tão gelada e o céu sempre tão longe.
dispersar-se nem sequer era um lema, mas uma velha ferida de infância. chamar a atenção era um jogo que tinha inventado, sempre que a mãe o deixava entregue a si mesmo e não tinha como saber dar-se colo durante as suas ausências. o cheiro das mulheres trazia-lhe então a infância de volta. e enterrava-se nele à procura do colo que tantas vezes lhe fora negado, abria-se a ferida e era pús, muito mais do que sémen, o que escorria da espada. os olhos negros ardiam no escuro, duas pérolas pretas que mantinha fechadas para poder ir ao fundo do fundo mais fundo do corpo de cada mulher com que se deitava, sem correr nenhum risco de que lhe arrancassem a alma, sem querer ver no espelho o tesouro que ocultava debaixo das pálpebras.
e no entanto é no fundo mais fundo do fundo das feridas abertas que está, afinal, o seu ouro. oferecer-se a si próprio, gemer nos seus braços, caber no seu colo de homem crescido e acolher nele também o menino que foi, semeá-lo de esperança, tornar fértil o campo dos sonhos, sentir o morno contacto dos pés com a terra e a proximidade do céu é o milagre pedido.
de costas para todas, repara como foi vã a conquista, excepto no ponto em que lhe mostra que só lhe falta ser dele e que, essa sim, é uma conquista limpa e merecida. a espada cansada de tantas lutas inúteis, a guerra perdida e um espaço de paz a tomar forma no peito e a pedir que se habite. meio século de vida e o regresso a si mesmo à distância de um sopro. quando enfim resgatar, do fundo mais fundo, as pérolas negras, quando abrir os olhos, a alma, e descobrir que é dentro de si que está o tesouro.