a quantidade de coisas que na língua dos homens são mal traduzidas, já viste?
estão sentados de frente para o mar, com uma das asas ele abraça-lhe os ombros, ela tem um dos braços em torno da sua cintura, embalam-se os dois no murmúrio das ondas, e apenas a minha necessidade de compreender o que sentem me faz traduzir tudo aquilo que não dizem.
não é necessário.
e reparo como ele já se deu conta da minha presença, respiro e ele deixa que as asas se agitem, um ligeiríssimo sopro afaga-lhe a nuca, expande-se a aura e a areia da praia está mais luminosa, ela brilha e parece uma anémona tecida em pele transparente.
que bonita!
reparo, agora sou eu, dou-me conta da sua presença, quando respira e os búzios despertam, quando desperta e as conchas se oferecem ao ir e vir das marés.
estamos sentados de frente para o mar, com uma das asas ele ampara-me o espanto, tenho um dos meus braços à espera do outro para poder dar-lhe um abraço.
inteira,
diz ele, e eu respondo
a quantidade de coisas que na língua dos homens são mal traduzidas, já viste?
estamos nisto há que tempos, eu e ele, estão desde o princípio à espera um do outro, ele e ela, três vozes e nenhuma traduz o que cada um diz, afinal, o murmúrio do mar a tingir-se de azul e de espuma.
palavras
diz ela.
milagres
diz ele.
e faz-se, enfim, silêncio entre nós.
