segunda-feira, 29 de agosto de 2011

nada

falavam-lhe em nada e vinha-lhe o medo de que o vazio tomasse conta de si. nada era nada, uma ausência de coisas, barulhos, pessoas, caminhos, mistérios. um grande buraco por onde iria, seguramente, esvair-se, um buraco tão fundo, tão fundo, um buraco sem fundo, muito diferente do buraco da Alice, que caindo dobrava os espelhos para se reencontrar reflectida no mundo.
a ela o nada dava-lhe náuseas, muito mais do que rumo. sentia vertigens, só de pensar que podia cair, tonturas quando se imaginava rodeada de nada, cercada por nada, submersa no nada. perdia as referências, os pontos de apoio, descoordenava-se o mundo e tudo era, então, o oposto que queria, para contrapor ao nada vazio. tudo. e de tudo um pouco: de coisas, barulhos, pessoas, caminhos, mistérios. tudo era válido. tudo servia. as coisas enchiam-lhe a casa e os bolsos, chegavam barulhos de todos os lados, coleccionava pessoas, somava caminhos, sobrepunha mistérios. tudo fazia com que nada ficasse de fora e não havia excepções. somente regras seguidas à risca e pautadas por velhos padrões que diziam que tudo é sempre melhor do que nada.




nada! e nadou. o corpo perdeu consistência, 
esvaíu-se a vertigem da queda, 
a tontura da água era leve, 
a náusea passou.
e do buraco saíram aos poucos:
coisas, barulhos, pessoas, caminhos, mistérios.


domingo, 28 de agosto de 2011

silêncio

a quantidade de coisas que na língua dos homens são mal traduzidas, já viste?
estão sentados de frente para o mar, com uma das asas ele abraça-lhe os ombros, ela tem um dos braços em torno da sua cintura, embalam-se os dois no murmúrio das ondas, e apenas a minha necessidade de compreender o que sentem me faz traduzir tudo aquilo que não dizem.
não é necessário.
e reparo como ele já se deu conta da minha presença, respiro e ele deixa que as asas se agitem, um ligeiríssimo sopro afaga-lhe a nuca, expande-se a aura e a areia da praia está mais luminosa, ela brilha e parece uma anémona tecida em pele transparente.
que bonita!
reparo, agora sou eu, dou-me conta da sua presença, quando respira e os búzios despertam, quando desperta e as conchas se oferecem ao ir e vir das marés.
estamos sentados de frente para o mar, com uma das asas ele ampara-me o espanto, tenho um dos meus braços à espera do outro para poder dar-lhe um abraço.
inteira,
diz ele, e eu respondo
a quantidade de coisas que na língua dos homens são mal traduzidas, já viste?
estamos nisto há que tempos, eu e ele, estão desde o princípio à espera um do outro, ele e ela, três vozes e nenhuma traduz o que cada um diz, afinal, o murmúrio do mar a tingir-se de azul e de espuma.
palavras
diz ela.
milagres
diz ele.
e faz-se, enfim, silêncio entre nós.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

fogo




chegavam à praia e ela despia-se. 
ele acendia a fogueira e iluminava-lhe a pele, 
depois de ser ter despido também. 
e ardiam no lume brando dos corpos até ser quase manhã, 
esgotando a espuma do mar que subia por ele
e que ela acolhia entre as margens da pele.

regresso

já tinha sido de todas, faltava-lhe apenas ser seu. meio século de gabarolices, conquistas, engodos, o corpo acusando o cansaço do desperdício de se ter gasto tanto em tão pouco, uma lista infidável de lutas que tinha travado com a sua espada de carne, como se esventrar as mulheres fosse uma questão de força e de honra. não era. era, isso sim, o desejo contido de que o amassem, de que gemessem e suspirassem entre os seus braços, como se fossem morrer no exacto momento em que lhes dava prazer e, ao mesmo tempo, como se assim fosse capaz de matar medos, carências, vertigens. era, talvez, a secreta vingança de as castigar, quando choravam por mais e já se tinha ausentado, tentando curar o seu próprio abandono. era a crença de que se alimentavam das suas entranhas que o fazia gastar as sementes, tornando estéreis as noites e desconsolados os campos de onde o amor se ausentava, por sentir a terra tão gelada e o céu sempre tão longe. 
dispersar-se nem sequer era um lema, mas uma velha ferida de infância. chamar a atenção era um jogo que tinha inventado, sempre que a mãe o deixava entregue a si mesmo e não tinha como saber dar-se colo durante as suas ausências. o cheiro das mulheres trazia-lhe então a infância de volta. e enterrava-se nele à procura do colo que tantas vezes lhe fora negado, abria-se a ferida e era pús, muito mais do que sémen, o que escorria da espada. os olhos negros ardiam no escuro, duas pérolas pretas que mantinha fechadas para poder ir ao fundo do fundo mais fundo do corpo de cada mulher com que se deitava, sem correr nenhum risco de que lhe arrancassem a alma, sem querer ver no espelho o tesouro que ocultava debaixo das pálpebras. 
e no entanto é no fundo mais fundo do fundo das feridas abertas que está, afinal, o seu ouro. oferecer-se a si próprio, gemer nos seus braços, caber no seu colo de homem crescido e acolher nele também o menino que foi, semeá-lo de esperança, tornar fértil o campo dos sonhos, sentir o morno contacto dos pés com a terra e a proximidade do céu é o milagre pedido.
de costas para todas, repara como foi vã a conquista, excepto no ponto em que lhe mostra que só lhe falta ser dele e que, essa sim, é uma conquista limpa e merecida. a espada cansada de tantas lutas inúteis, a guerra perdida e um espaço de paz a tomar forma no peito e a pedir que se habite. meio século de vida e o regresso a si mesmo à distância de um sopro. quando enfim resgatar, do fundo mais fundo, as pérolas negras, quando abrir os olhos, a alma, e descobrir que é dentro de si que está o tesouro.


a tonta



adormecia e tornava-se humana. cresciam-lhe braços, pernas, umbigo, pescoço, cabelo, tudo como era suposto, uma imensa mancha de pele cobria-a dos pés à cabeça, um esqueleto feito de osso sustentava-lhe o peso, os músculos davam-lhe força, o sangue corria nas veias, vermelho. adormecida, via-se ao espelho e imitava o que via na humanidade dos outros. andava, comia, dançava, abraçava, enjoava, mentia, falava, tremia, chorava, teimava, traía, tudo como via as outras pessoas fazerem. só não conseguia sonhar: o sono tirava-lhe a esperança. sonhar, só mesmo acordada, quando se desfazia das máscaras todas - das manchas, dos ossos, da pele, do pescoço, dos braços - e regressava ao casulo de mil cores onde tecia milagres.
eram de todas as espécies e fazia-os para todos os gostos. pequenos ou grandes, consoante o pedido, imediatos os que sentia serem de maior necessidade, e mais demorados os que cria necessitarem de uma prova de fé. curava maleitas de amor com a mesma facilidade com que acabava com os maus hábitos, recuperava membros paralisados em auto-mutilações, afastava o bolor da tristeza quando o sentia colado às paredes da alma, oferecia consolo aos rejeitados e alívio aos enfermos e só não conseguia, e não porque não houvesse tentado, ressuscitar os que tinham morrido. a esses, não havia milagre que pudesse valer-lhes, por mais que lhe estendessem as mãos descarnadas do outro lado do véu e lhe implorassem que os trouxesse de novo para a vida.
na humanidade, chamavam-lhe a tonta, mas no casulo ninguém lhe chamava coisa nenhuma, já que os milagres eram entregues sem que fosse preciso um contacto directo, saindo em forma de espuma, de aragem, de sopro, e indo ao encontro de quem os tinha pedido de forma invisível.
houve um dia, porém, em que sentiu a presença de mais alguém no casulo. não soube identificar de onde provinha, apenas que se manifestava como um espectro de sombra latente em cada milagre que se preparava para realizar. tentou afastá-lo, mas a tendência para escurecer tudo aquilo em que tocava agravou-se. em pouco tempo, o casulo transformou-se em caverna e percebeu que estava perante um caso de morte, mais um caso perdido, portanto, de alguém que vinha, faminto, pedir-lhe o milagre da ressurreição a apressou-se a dizer-lhe 
estás a perder o teu tempo, o melhor é voltares para o lugar de onde vieste
mas a morte gemeu e, nesse momento, realizou que o milagre que lhe era pedido só poderia ser concedido por deus e veio-lhe a vontade de adormecer ali mesmo outra vez e para sempre, veio-lhe o desejo de que lhe crescessem braços, pernas, umbigo, pescoço, cabelo, tudo como era suposto, para não ter de ser nada mais do que a tonta e esquivando-se assim à sua teia de sonhos.
mas deus condensou-a no colo nesse momento e concedeu-lhe o milagre das asas, para que de uma vez rasgasse o casulo onde tecia as suas magias, resgatasse o seu dom e levasse o milagre da esperança a todos os que estivessem dispostos a ressuscitar do sono mortal dos humanos.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Graça


acreditar no amor fez dele uma lenda. tinham-lhe dito que o semeasse numa mulher de formas redondas, porque eram sempre as mais férteis, as mulheres de formas redondas. em vez disso, porém, escolheu enterrar as sementes na planície do seu próprio peito e esperar que se avolumasse o bater do músculo lá dentro. o tempo passava e a cada dia sentia a forma do peito mais cheia, a ponto de lhe parecer que os pássaros faziam ninhos nas suas entranhas e que o coração já nem sequer batia como um tambor, assemelhando-se mais a um alegre chilreio. notava também que tudo era mais circular no resto do corpo, como se fosse um circuito que se alimentava sem depender dos movimentos exteriores ou alheios. e até o ar, que saía e entrava por ele, o insuflava de espanto, por não lhe exigir, afinal, nem pensamento nem esforço. reparava nos dedos e as pontas estavam mais curvas, o que lhe permitia tocar em todas as coisas sem sentir as arestas, as frinchas, os ângulos. os pés tinham-se tornado mais esféricos, o que fazia com que se rebolasse pelos caminhos, acompanhando os ciclos do mundo e o rodar das estações. e então não havia mais esquinas que fosse preciso dobrar, cruzamentos de espécie nenhuma onde necessitasse de perguntar
esquerda ou direita?
inverno nenhum que não desembocasse directo na primavera seguinte.
em cada olho, tinha agora os dois hemisférios, as constelações do norte e do sul brilhando na circunferência das íris, a rotação dos lábios era perfeita quando proferia palavras que se enrolavam umas nas outras e geravam um som igualzinho ao do mar, quando se enrola na areia.
contente, contente, circulando por todo o lado com um ar de recém-nascido feliz, todos acharam que só podia ter finalmente encontrado a mulher de formas redondas e quiseram saber o seu nome.
Graça
disse ele.
e todos acharam que Graça era um nome bonito e levantou-se um murmúrio na vila de que era seguramente mulher para lhe ter dado a volta à cabeça, pois os dias passavam, os meses passavam, os anos passavam e ele sempre feliz e contente, cada vez mais redondo e mais fértil. não tardou a que o considerassem o homem mais bem casado do mundo, a ponto de virar uma lenda, já que por ali os casamentos podiam até durar uma vida, mas tinham os seus altos e baixos, arestas e frinchas e esquinas. a verdade, porém, é que nunca foi visto a passear de braço dado com Graça nenhuma. e só quem o olhasse por dentro veria que a graça, afinal, era ter-se tornado no fruto da sua própria semente.


ouve a canção



e os pássaros hão-de seguir a livre cadência do teu coração.



para (o) peito

gerânios vermelhos para celebrar a tua paciência, porque mereces, porque é a teia de todos os sonhos do mundo, como um dia disseram as fadas - muito antes do tempo das bruxas. 
agora recolhem-se - as bruxas - e os feitiços que só contra ti se viravam, quando os deixavas a arder no teu peito e a escuridão vinha azedar-te a polpa dos dedos. 
outro tempo, 
disseram os deuses.
que há anos semeiam a alma dos homens para que dela nasçam gerânios.



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

gravidez utópica


amadurece no seu próprio ventre e vai dar-se à luz. 
acolhe no corpo o novo embrião,
recém-nascido fora da forma.
e será só dela o espanto
de chegar viva ao mundo.






amo-te assim

                
              disse-lhe ela.
              assim como?
              quis saber ele.
              assim tanto!
              respondeu ela.
              mas como assim tanto?
              assim como a mim.

de espanto e de nuvens


se habitam as árvores, quando o teu sono se torna algodão.