sábado, 3 de setembro de 2011

ciao bella ♥

era exactamente o mesmo aperto, igual ao da primeira vez em que a fui deixá-la à escola. a mesma, a sensação de a acompanhar num novo passo, e em tudo semelhante a comoção de a ver com pés para andar sozinha.
achei que ia chorar, cheguei mesmo a ameaçar, mas passou logo. não sei se por a ver crescida - quase tão alta como eu, mochila às costas, olhos secos, um caminhar firme e seguro rumo ao check-in - se por eu própria ter crescido e amadurecido a mãe-galinha-mariquinhas-pé-de-salsa que há em mim. 
primeira filha, a Francisca apanhou com a estreia da minha maternidade, com as primeiras vezes todas, com muito ranho e muitas lágrimas, com inseguranças várias e milhentas ansiedades. mas hoje, no aeroporto, e depois de um longo abraço - que terá de durar três meses - senti a liberdade de ser mãe sem possuir, sem sofrer de galinhice, sem ter medo de falhar, sem ansiar sequer que seja rápido o regresso, para não morrer de saudades. a geografia dos afectos não se pauta por distâncias e os quilómetros que separam Lisboa do Sul de Itália são, afinal, meros exercícios de mapa. aqui ou lá, é aqui que ela está sempre. aqui dentro, bella♥, bella♥, aninhada no meu peito e embalada pela vida.

tlim, tlim... e acabei de receber agora mesmo uma mensagem: 'on the airplane ,, not flyin' yet ]]. 'voar tambèm è sö andar , ir tambèm è sö fugir' . baci * '


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

três em um

fazemos uma boa equipa, tu e eu.
tu e eu - reparo na repetição. 
há quanto tempo falo de nós e nos separo? tantos nós, há tanto tempo, impedindo, uma e outra e outra vez, a singular expressão do Ser.
tu e eu.
sempre que eu não quero ser eu e que tu me vens salvar. ou será sempre que tu não me deixas ser quem sou, sempre que fujo, de cada vez que me abandono, quando me ausento e te atribuo todas as culpas?
eu e tu.
eu e ela.
tu e ela.
ela e eu.
a 'santíssima trindade' à escala humana, será isso? a separação em partes daquilo que se quer unido? o corpo, a mente, a alma... a expressão triangular do equilíbrio, será isso?
três em um.
eu, o corpo. onde me sinto tão mortal, onde me dôo - de doar e de doer. passos, gestos, movimento. biologia. carne e sangue. uma fachada que envelhece com o tempo, a mancha humana de humidade a cada inverno, a primavera onde semeio os meus desejos, a colheita do prazer à luz da lua, o calor do verão na nuca, o outono e a nudez.
tu, a mente. atraindo pensamentos estapafúrdios, ideias loucas, raivas surdas. premiando a minha insónia com os troféus de tantas lutas, tantas vezes a aliada dos meus sonhos, a fazedora dos meus rumos, a companheira dos meus feitos, a guardadora das memórias num novelo interminável de neurónios e sinapses. a sugadora colectiva de transtornos. a causadora de distúrbios. a condensação das sombras.
e ela, a alma, atenta, à escuta. a fada, a sábia, a criadora de milagres, eternamente inseparável dela própria, infinita e luminosa, a condensação do cosmos.
eu e tu damo-nos luta. quando me puxas eu empurro-te, quando me empurras corro o risco de cair, quando me pisas eu estrebucho, quando sufoco é tua a culpa, quando me culpas fico cheia de vergonha, quando te insulto estala a guerra, quando me feres não te socorro e fico surda, sempre que te dou ouvidos.
tu e ela. quando falas, ela cala. quando insinuas, ela cura. quando gritas, ela sopra. ela chega e vais-te embora. queres mandar e ela deixa, compreende que me mentes, não pactua, reserva a paz para aqueles momentos em que não estamos em guerra, tu e eu, vela por nós, ri-se de nós, nunca é de troça, ri-se apenas, ri-se muito, é tão feliz!
ela e eu. pega-me ao colo. sou um fardo tão pesado... e ela ri-se, levezinha. a minha mortalidade não lhe pesa, pelo contrário. a experiência da matéria é apenas mais um passo, apenas isso. é a única que vê o três em um e eu e tu somos os cegos: quando olhamos um para o outro, em vez de olharmos para dentro, quando insistimos nesta forma, nesta 'dupla', e nem eu nem tu abrimos... e sem base, não há vórtice.
e ela ri-se, levezinha.
e somos um. e não sabemos.